Possível Futuro para Biden e China

Enquanto a Administração Trump aumentava a agressividade da Guerra Comercial com a China, e atiçava as chamas insistindo na retórica do “Vírus Chinês”, esta se motivava e expandia a sua influência sem qualquer timidez, e este é o compromisso fatal de uma agenda que se diz anti-globalista. Eu pessoalmente contesto esta visão que a agenda de Trump é anti-globalista, visto o globalismo estar no comércio, fluxo de capital e migração, algo que nunca parou sobre a Administração por mais retórica nacionalista que saísse cá para fora. Os EUA da América não perderam a sua hegemonia, ainda que um segundo termo de Trump provavelmente a colocasse sobre um teste de stress, conseguiu manter influência no Médio Oriente sem intervenção, ainda que tenha tido os seus maus compromissos, como o trágico abandono dos curdos à mercê dos Turcos. A retórica anti-globalista não foi nada se não uma desculpa para justificar a sua legitimidade aos seus eleitores, e esconder o desastre que seriam suas relações internacionais, perfeitamente ciente das consequências do que prometia.

A verdade é que o Globalismo sobreviveu e Biden vai reforçá-lo. E também é verdade que a negligência dos EUA e da Administração Trump durante estes três anos permitiu a China a ir de “Um País, Dois Sistemas” a “Um País, Um Sistema.” Ao cortar relações com OMS e abandonar o acordo de Paris, retiraram aos EUA as alavancas chave que pressionavam a China. Isto deu um motivo para os China Hawks na GOP e DNC puxarem as suas agendas de impregnar um novo inimigo externo aos EUA para que nasça uma nova guerra, ainda que seja fria.

Em Junho, na véspera das celebrações da entrega de Hong Kong dos britânicos aos Chineses em 1997, a China impôs uma medida draconiana que dá a Pequim poder para destruir quaisquer dissidentes em Hong Kong. As autoridades viram os protestos de 2019 como uma “Revolução Colorida” e o Partido Comunista decidiu que era hora de agir. Nem o governo de Hong Kong fazia ideia do que os viria a deixá-los sem dormir até a China passar a lei no parlamento.

Desde aí, em Julho o governo local impediu doze políticos do governo, incluindo quatro do Conselho Legislativo de Hong Kong, de participar nas eleições que viriam a dar-se em Setembro, sendo estes acusados de oporem-se à nova lei e de mau comportamento. No inicio de Novembro deste ano a policia prendeu oito membros da oposição, por um alegado confronto, e pouco mais tarde as autoridades de Hong Kong declararam que os quatro legisladores impedidos de serem reeleitos estavam também despejados dos seus lugares no Conselho. Em resposta, outros quinze membros da oposição anunciaram a sua demissão “por simpatia” aos seus colegas. Pela primeira vez em décadas, deixou de haver uma oposição no Conselho Legislativo, garantindo uma tomada de posse pacífica de Hong Kong pelo regime comunista Chinês.

Este golpe causou ondas em Portugal, nomeadamente o partido Português Iniciativa Liberal, que no dia 16 de Novembro disse que os políticos de Hong Kong, com quem estavam a estabelecer ligação para saber mais sobre a situação de um Português detido ilegalmente pelo regime comunista Chinês, foram também detidos. Propuseram ap governo Português suspender o acordo de extradição com Hong-Kong, não assinar mais acordos com o regime comunista Chinês, e que Portugal deve liderar este tema durante a presidência Portuguesa do Conselho da UE (Jan-Junho 2020), exigindo ainda uma reacção do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Santos Silva. O movimento pro-democracia considera-se assim virtualmente destruído, suprimindo os corações dos jovens mais rebeldes e as vontades de alguns dos lojistas que até à pouco tempo tinham na montra cartazes de apoio pro-democracia.

Alguns políticos pro-democracia ainda têm a chance de participar nas eleições do próximo ano, mas as vozes estão agora bastante enfraquecidas, para não falar que o apoio popular está terrivelmente desmotivado e céptico que alguma vez Hong Kong terá um sistema verdadeiramente democrático.

No Pacífico, além das jogadas estratégicas pela marinha Chinesa, o The Economist reporta que em Maio de 2020, a China impôs uma tarifa de 80% nas importações de cevada e restrições nas importações de carne de vaca Australiana. Para a China provar a sua independência de importações estrangeiras e reforçar a sua Nova Rota da Seda, continua a desencorajar compra de carvão Australiano, algodão e madeira. Estas atitudes vem a afectar a Austrália significativamente na área das exportações, educação (cerca 260 mil inscritos Chineses em 2019) e turismo, que são muito importantes na economia Australiana e relações entre os dois países.

É necessário ter em mente que ainda não existe uma agenda concreta por parte de uma Administração Biden, e há bastantes incógnitas, mas dá para fazer algumas projecções ao prestarmos atenção à recente atitude de Washington e de alguns sinais dados durante a campanha Presidencial.

O desejo de alguns dos membros do movimento pro-democracia, e o que se espera de uma Administração Biden, é uma posição mais assertiva perante Hong Kong e reparar negociações com a própria China para formar acordos em prol dos objectivos de redução de emissões de carbono, que são formas eficazes de manter relações diplomáticas e retirar informação mais precisa sobre o regime. Multilateralismo só se prova beneficial para o mundo se for incluída a União Europeia nas negociações.

Embora o estado de alerta por parte dos Estados Unidos seja bi-partidário, quer os Republicanos quer os Democratas acusam o outro de estar a favorecer a China de alguma forma. Apoiantes de Trump falam que Biden não tem pulso suficiente para lidar com a China, irá fazer as vontades a Xi Jinping e procurará aliar-se ao seu regime, importando o socialismo ou comunismo; apoiantes de Biden dizem que a China prefere o Presidente Trump por estarem completamente cientes que ele corrói as relações internacionais com os aliados dos Estados Unidos, provando benéfico para a esfera de influência Chinesa.

Entretanto quem quer que esteja na Administração irá complicar a vida ao regime Chinês. Trump continuará a sua Guerra Comercial, e o Secretário de Estado Mike Pompeo impulsionará as hostilidades com ameaças de mais sanções e atacando as atrocidades contra os Uighurs em Xinjiang; Biden vai usar a sua promessa de unir o povo e sarar relações para criar uma coligação internacional que vise competir com a China e a force a mudar o seu comportamento, quer economicamente quer culturalmente, e está também acusada pelos Democratas de espionagem, roubo de tecnologia e violação dos direitos humanos. Ou seja, ainda que o interesse pelo resultados das eleições seja evidente, a China não tem muito a ganhar e temos de passar a ver as suas acções como uma adaptação à política hostil por parte do Oeste.

Outra característica bi-partidária de Washington é o apoio a Taiwan. A Administração Trump optou por focar-se nos nacionalistas Chineses, e ao reconhecer a sua importância estratégica, ainda este ano seguiu com a venda de armas a Taiwan, o que irritou a China. Esta relação pode complicar as coisas ainda mais por ser visto como uma ocupação dos EUA à porta da China, e qualquer acção contra a China pode ser traduzida como um apoio automático a Taiwan, encorajando atitudes que possam comprometer a estabilidade.

Num blog anterior mencionei que a a China é um jogador importante para o futuro das relações Washington-Pyongyang, e o que se deve esperar é que sejam apresentadas à mesa concessões quanto às situações em Hong Kong e Xinjiang, pois existem interesses que Washington muito provavelmente terá de respeitar. Sem nada para pressionar a China, esta faz o que bem entender para garantir hegemonia nestes territórios e negociar livremente com a Coreia do Norte, a não ser que Biden volte a colocar os EUA como um membro importante dos grupos que o colocam mais perto da China.

No entanto é preciso ter cuidado com as promessas de “dureza com a China,” pois nada unirá mais o povo Chinês do que isto, e Biden vai provavelmente precisar da sua ajuda para combater a pandemia e chegar aos objectivos climáticos. De nada serve ter um gráfico que diga que um país reduziu as emissões de gases da indústria, só para descobrir externalização dessas emissões. Isto é, EUA simplesmente realojaram a indústria de carne de vaca para a China ou América do Sul, reduzindo as emissões locais mas aumentando nos outros países. O que ambos EUA e China têm em comum são uma miscelânea de problemas domésticos, ainda que seja do interesse da China trabalhar com o Oeste para combater os seus problemas ambientais causados pela sua indústria tão perto das cidades, causando doenças pulmonares, e falta de água potável em várias áreas que comprometem o solo e o consumo. Uma classe média estagnada e uma nova onda de desempregados é outro pesadelo a enfrentar em 2021.

Apesar dos problemas domésticos e da Guerra Comercial iniciada pela Administração Trump, o dragão vermelho continua a expandir-se e a ganhar parceiros económicos que o auxiliam a contornar quaisquer sanções pelos Estados Unidos. A conclusão do recente conflito em Nagorno-Karabakh abriu os acessos para adicionar a Turquia e Azerbeijão à Belt and Road Initiave – Nova Rota da Seda – e assim ganhar mais parceiros económicos.

O monstro que a China é hoje não é o mesmo que era durante a Administração Obama, e Biden terá certamente uma nova abordagem, talvez com mais princípios e nem sequer terá de estar diretamente envolvida em hostilidades com Pequim. Se Biden buscar relações multilaterais, estará a exibir a sua capacidade de criar aliados e construir uma barreira económica que faça entender à China que os EUA não perderam a sua influência, e que a ideia que Trump degradou a atitude externa perante a América ao ponto de aceitarem o Este como alternativa não passa de uma fantasia. Republicanos podem acusar assim Biden de não estar a ser duro com a China, ainda que se mantenha em aberto a possibilidade de qualquer intervenção estratégica por parte de uma Administração Biden. Os Americanos estão cansados de guerras mas os neoconservadores e os falcões não foram nem vão a lado nenhum tão cedo, e estes mal podiam esperar que Trump saísse da Casa Branca. É uma simples questão de levar as ideias hegemónicas do Oeste ao mainstream. Mas não vamos confundir os Falcões da China com os Falcões Corporativos: o primeiro será hostil à China e política comunista, o segundo vai querer salvaguardar os negócios no Oeste e virar os lucros de companhias Chinesas para os EUA.

Mais uma vez permanecem muitas incógnitas, entre elas está a incerteza se o Presidente Donald Trump dará a pasta ao Presidente Eleito Biden em Janeiro. Durante o mês de Dezembro a Administração pode simplesmente escalar as tensões, ou à saída apertar com a Guerra Comercial. Biden ainda não apontou todo gabinete responsável por assuntos externos para termos uma ideia do que esperar. E por fim, quem sabe que conflitos ou eventos possam surgir que faça tudo muito mais imprevisível.

Fontes Adicionais: The Diplomat Podcast

Published by Igor Veloso

Eternal apprentice.

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